A verdade ou o que restou dela

Pedro Carboni
NEW ORDER
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4 min readMay 7, 2024

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Na Grécia antiga os sofistas eram considerados uns interesseiros que procuravam vencer os debates independentemente da verdade, ensinando a arte da demagogia a quem pudesse pagar pelos seus serviços. Representando uma perspectiva diametralmente oposta, Sócrates (470–399 a.C) agitou a cena dos pensadores de Atenas. Não foi à toa que ele ganhou o epíteto de pai da filosofia.

A verdade sempre esteve em primeiro lugar para Sócrates. Seu método consistia em bombardear seus interlocutores com perguntas até que o argumento estivesse devidamente apurado — ou refutado. O resultado? Foi condenado à morte por subverter a juventude da época.

Evidentemente a busca pela verdade não é um tema novo. Teorizar sobre o real estado das coisas sempre foi — e continuará sendo — essencial para a sobrevivência do ser humano. Saber a verdade pode fazer a diferença entre a vida ou a morte, ou entre uma vida autêntica e uma vida desperdiçada.

Desvendar uma verdade pode ser um processo doloroso e desgastante, mas os benefícios da verdade são claros e transformadores. Por outro lado, uma pessoa que tem uma revelação e não se ajusta à realidade paga um preço alto por isso. Saber o que é certo e continuar fazendo o errado é extremamente desgastante. A repulsa provocada por uma mentira não é só intelectual, ela deixa rastros fisiológicos. Esta é a a ideia por trás dos testes de polígrafo, por mais que estejam longe de serem confiáveis.

Para William James (1842–1910), as verdades devem formar uma unidade coerente entre a experiência das pessoas e o mundo. “A verdade é o que funciona”. A ideia de uma verdade completamente divorciada de qualquer tipo de realismo é relativamente recente e chegou ao seu extremo na filosofia de intelectuais pós-modernos como Jacques Derrida (1930–2004), a cabeça por trás do conceito da desconstrução.

Em qualquer curso de humanas, os pós-modernos franceses são tratados como verdadeiros santos. O capo di tutti capi da nossa nova tradição hagiográfica definitivamente é Foucault. Para ele, a verdade não existe, é apenas uma ferramenta para perpetuação do poder vigente. Partindo deste ponto de vista, torna-se justo e até desejável mentir com o objetivo de equilibrar as relações de poder. Todos os políticos demagogos e seu séquito de fanáticos agradecem. A contagem de mortes em nome de mentiras bem intencionadas no século XX é imbatível.

A proposta de difundir ideias pós-modernas para a população em geral — não importa a roupagem — é um absurdo. Se fizermos uma analogia com a física, conceitos básicos newtonianos são aplicáveis no dia a dia e bastam para verificar se as fundações de um edifício irão aguentá-lo. Uma parte considerável desses conceitos pode ser verificada intuitivamente por pessoas que nunca estudaram formalmente. Por mais que tecnicamente as contas não sejam exatamente corretas, a física newtoniana nos basta para construir uma ponte. No entanto, a conta definitivamente não fecha para objetos como buracos negros ou partículas sub-atômicas. Para explicar estes casos serão necessários modelos mais modernos, como o de Einstein.

As distorções de espaço e tempo na velocidade da luz não mudam nada na nossa experiência cotidiana. O mesmo vale para o pensamento de Derrida que, como o de Einstein, só é compreendido e estudado seriamente por um nicho muito específico de estudiosos. No entanto, ao contrário das ideias de Einstein, incontroversas entre físicos, as ideias de Derrida mal fazem sentido para intelectuais como Noam Chomsky, que abandona a máxima progressista de “não ter inimigos à esquerda” para tratar o trabalho do autor como “impenetrável, infantil e ridículo.” Ao invés de oferecer modelos para explicar e analisar a realidade, Derrida leva nada a lugar nenhum, no que parece ser um esforço para confundir e relativizar qualquer discurso.

Se, para Platão, os sofistas trazem à ruína todas as pessoas que encontram e devem ser expulsos de Atenas, o que ele diria dos desconstrucionistas? As consequências de um ceticismo radical são perigosas, uma vez que não existe ideia nem proposta viável do que construir na clareira da desconstrução. Esvaziar um tubo de pasta de dente é muito fácil, quero ver colocar a pasta de dente de volta…

O discurso modernoso de desconstrução apresenta uma visão adolescente que, disfarçada de jovem e descolada, idealiza as realidades trágicas da existência e cria um retrato deformado da verdade. É uma perspectiva superficial, baseada em uma escola de pensamento que privilegia o caos, a fragmentação e a destruição. Enquanto isso, boa parte dos meios de comunicação abandonaram completamente a premissa da busca da verdade, relativizando-a ou tratando-a como uma ferramenta para salvar o mundo.

A verdade não existe. Qualquer coisa é verdade. Tudo o que o inimigo fala é mentira, então o contrário que o inimigo fala é verdade. O inimigo do meu inimigo fala a verdade. Siga as pessoas certas para ficar por dentro da última moda em termos de opinião e conhecer todos os jargões novos. Compre os livros recomendados para a estante que adorna suas calls. Posicione-se agora, você já recebeu os fatos e os fatos já foram checados… Compartilhe, curta, dê like e se inscreva no canal. Escolha a sua caricatura da realidade. É o novo normal. Entre no esquema.

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