Kintsugi e o Transtorno do Estresse Pós-Traumático

Kintsugi (金継ぎ) é a arte de reparar louças quebradas com ouro ou outro metal precioso. Trata o quebrado como parte da história do objeto que não deve ser descartado, mas apropriado e valorizado. O kintsugi é mais do que uma técnica, é uma filosofia de vida com grande valia para pessoas que passaram por situações catastróficas em suas vidas.

Antes caracterizado como um distúrbio de ansiedade, o Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) passou a ser entendido na virada do século como um distúrbio da memória. Tecnicamente, o TEPT pode ser descrito como um distúrbio causado por um ou mais eventos traumáticos que desencadeiam uma série de sintomas relacionados às lembranças do ocorrido.

As nossas memórias representam um remodelamento da mente e corpo que tem como função a adaptação a um futuro que se espera ser baseado nas experiências passadas. Em algumas situações, como no caso do TEPT, este remodelamento pode não ser adaptativo, especialmente quando a resposta aos eventos traumáticos é de intenso medo, impotência ou horror. O resultado são sintomas desagradáveis, classificados em três grupos principais.

O primeiro é a revivência do trauma, que diz respeito a lembranças intrusivas, pesadelos e flashbacks dos traumas. Isto geralmente ocorre quando o indivíduo é exposto a estímulos sensoriais ligados ao trauma e provoca reações físicas e emocionais.

Um outro grupo de sintomas diz respeito à esquiva e ao entorpecimento emocional. Isto porque uma pessoa com TEPT se esforça para evitar pensamentos relacionados ao trauma, assim como atividades, locais ou pessoas que lembrem o evento traumático. Neste aspecto, o TEPT provoca sintomas similares à depressão, como a perda de interesse em atividades, sentimentos de isolamento, diminuição na expressão de sentimentos e uma visão negativa do futuro.

Por fim, temos o grupo ligado à hiperestimulação autonômica, que envolve sintomas como insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e hipervigilância. Como consequência, as respostas a certos estímulos pode ficar exagerada. Uma pessoa com TEPT tende a ficar em um estado de alerta até que o trauma seja devidamente processado e elaborado.

Como os sintomas do TEPT podem ser caracterizados por uma falha na memorização da situação traumática, as hipóteses que buscam a explicação neurobiológica do distúrbio se baseiam em áreas do cérebro que são importantes para o processamento e consolidação da memória.

Quando uma pessoa passa por uma situação aversiva como um trauma, ocorre um processo chamado condicionamento do medo. As memórias relacionadas aos eventos estressantes são fortalecidas na amígdala, que faz parte do chamado cérebro reptiliano. A ativação é automática, provocada por estímulos que não necessariamente associamos aos eventos traumáticos.

Os seres humanos são dotados de uma área do cérebro chamada de córtex pré-frontal, que é capaz de inibir a superativação da amígdala e combater as distorções decorrentes de um estímulo exagerado. Por este motivo, intervenções psicoterapêuticas podem ter bons resultados no tratamento do TEPT mesmo sem o uso de medicamentos.

Segundo estudo de Brewin e Holmes (2003) existem dois sistemas diferentes de representação da memória: o sistema VAM, das memórias acessíveis verbalmente e o sistema SAM, relacionado às memórias acessíveis situacionalmente. O sistema VAM diz respeito às memórias estruturadas em uma narrativa e pode ser facilmente contada ou transcrita. Já a memória SAM está ligada às sensações e emoções de um determinado evento.

No TEPT, há uma desconexão entre estes dois tipos de memória e estímulos ambientais podem ativar o que Elbert (2015) chama de rede de trauma. Em alguns casos a ativação pode gerar uma sensação de alarme — que ativa o instinto de luta ou fuga — ou de dissociação, que leva a um bloqueio destas memórias. A ativação desta rede de trauma é dolorosa e, portanto, é comum o comportamento de evitação destas memórias. Consequentemente, torna-se difícil a estruturação dos eventos em uma ordem cronológica.

Um tratamento adequado do TEPT deve ativar a estrutura do medo, através do acesso a informações relevantes ao trauma, para que seja possível corrigir as distorções causadas por um processamento inadequado das memórias. A melhor maneira de fazer isso é através da exposição, seja ela imaginária — em consultório e conduzida pelo terapeuta — ou ao vivo, com o paciente revisitando lugares e situações que relembrem o trauma.

Na exposição imaginária, cabe ao terapeuta guiar uma exploração dos aspectos sensoriais, pensamentos e respostas fisiológicas relacionados ao trauma. Os eventos são revisitados momento por momento, como uma forma de reintegrar as memórias do tipo SAM com as do tipo VAM. Ao contar a história, o nível de excitação do paciente pode aumentar em determinados trechos. Neste momento, o terapeuta deve entrar no modo “câmera lenta”, diminuindo a velocidade da narrativa e detalhando as cenas. Não é raro que, com este exercício, o paciente relembre-se de detalhes importantes que acreditava ter esquecido. Na exposição imaginária é possível também utilizar uma técnica chamada de rescripting, onde o paciente e terapeuta intervém na história e analisam alternativas ao que ocorreu de fato. Isto é efetivo porque recupera a função primordial para a memória, que é preparar a pessoa para o futuro.

Mas voltemos ao kintsugi: qualquer pessoa com uma cumbuca na mão pode se descuidar e deixá-la cair. Reparar a louça com ouro envolve força de vontade, paciência, talento e técnica. O resultado pode ser — e geralmente é — muito mais interessante que a cumbuca original. Portanto cuide bem da sua cumbuca. E se você deixar ela se espatifar, conserte-a com ouro.

VENTURA, P. et al. Transtorno de estresse pós-traumático. Psicoterapias cognitivo-comportamentais, 2ª edição (345–368)
BREWIN, C. R. (2014). Episodic memory, perceptual memory, and their interaction: Foundations for a theory of posttraumatic stress disorder. Psychological Bulletin, 140(1), 69–97. doi:10.1037/a0033722
RIGOLI, Marcelo Montagner et al. The role of memory in posttraumatic stress disorder: implications for clinical practice. Trends Psychiatry Psychother.
ELBERT, T. Narrative Exposure Therapy. Reorganizing Memories of Traumatic Stress, Fear, and Violence. Evidence Based Treatments for Trauma-Related Psychological Disorders: A Practical Guide for Clinicians

Psicoterapeuta. Informações de contato em pedrocarboni.com.br

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